Dioníso Del Santo, artista plástico e poeta capixaba (por Renata Bomfim)


SONS NOTURNOS

Estala, canta a folha da palmeira,
Embalsamando os ares de harmonia,
Depois definido, tímida e macia,
Nesse drama da noite feiticeira.

Sorri, soluça e geme a capoeira...
E o vento, ouvindo a triste melodia,
Vai rindo, loucamente, de ironia
Nos ramos denegridos da mangueira.

Enfim, tudo emudece, de repente
Tristíssimo silêncio a noite abraça
Como pausa de etérea serenata...

É da coruja fúnebre somente
O gargalhar estrídulo perpassa
O taciturno âmago da mata.

Sons noturnos é um poema que revela o caráter multifacetado da obra do artista colatinense Dionísio Del Santo (1925-1999). Ao soneto decassílabo impecável se juntam obras que transitam entre a pintura, a serigrafia, o desenho, a gravação e a serigrafia. Artista premiado, Dionisio Del Santo está entre os nomes de destaque do movimento Modernista brasileiro Filho de lavradores italianos, foi na biblioteca do Seminário Seráfico de São Francisco de Assis, em Santa Teresa, que o jovem aspirante a padre descobriu o amor pela arte. Interessou-se por Botticelli, Portinari, Van Gogh e reproduzia em papel quadriculado, ícones da pintura clássica e moderna. Estudou geometria, perspectiva e realizou variados projetos arquitetônicos. Convocado pelo serviço militar, mudou-se para Vila velha, e prestando serviços como cabo no Batalhão de Caçadores. Posteriormente, lecionou latim, língua portuguesa e matemática numa escola do Rio de Janeiro. Desempenhou variadas atividades no campo da arte, entre elas foi professor de Gravura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. 

Dionisio Del Santo desenvolveu uma série de obras, em mais de 50 anos de trabalho,  dentre elas variadas xilogravuras, especialmente de 1953 a 1959. A critica descreveu este trabalho como sendo uma "faceta expressionista" dessa linguagem. O poeta desenvolveu uma intimidade com a linha, elemento básico do desenho, e com ela construiu uma obra elaborada e harmônica.
 Observamos grupos de linhas paralelas produzindo efeito de vibração. Foi na década de 70, e inspirado na serigrafia, que Del Santo desenvolveu essas obras "de conotação cinética", ou seja, que se modificam na medida em que o observador se desloca.
Del Santo explorou com profundidade o universo da serigrafia. Ele utilizou elementos que apreciava (as linhas, as cores, a estrutura geométrica), compondo-os com signos que revelam diferentes fases de produção. As serigrafias foram desenvolvidas, especialmente, entre os anos de 1966 e 1997.

Entre 1992 e 1998 o artista produziu um conjunto de obras que denominou "fragmentos ritmicos". Mais uma  ação com propósito de renovação da sua linguagem individual. Del Santo declarou: "considero que a preseverente elaboração da obra constitui-se na meta fundamental  que o designio celeste me determinou na vida". Se tenho cumprido a contento essa meta, cabe aos apreciadores perceber intuitivamente ou julgar segundo os seus conhecimentos".
O crítico Carlos Chenier declarou que Del Santo "foi sempre um asceta. Mudou somente quando sentiu necessidade estética para adquirir sua própria dicção e vocabulário plástico".
 O artista possui vários prêmios, entre eles o "Prêmio Itamarati de aquisição", 1967; "Salão Nacional de Arte Moderna. Prêmio isenção do juri", 1968; "V Salão de Arte de Belo Horizonte. Prêmio de aquisição", 1973.
 Del Santo produziu um caderno de poesia intitulado "Flores murchas", com cerca de cem sonetos. nele há títulos como Inspiração, na floresta, Colatina, Amor, Serenata, Veneração, entre outros.
Renata Bomfim
Artista plástica e poeta 
Catálogo do Museu de Artes do ES/ MAES

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