Sandra Resende (Parte 1)





Trajetória destacada pela versatilidade e reinvenção artística


*por Ana Luiza Calmon

Uma árvore sem folhas e frutos, seca, feita apenas de galhos. Foi assim o primeiro desenho da artista plástica Sandra Resende. Então com 12 anos de idade, queria ganhar novamente o prêmio de desenho mais bonito na semana da árvore realizada pela sua escola, na cidade mineira de Barbacena.

Sandra sempre ganhava com a ajuda do irmão mais velho, um desenhista. Até que, em um ano, a cartolina permanecia branca no dia da competição. Em cima da hora, alguns traços foram feitos e uma árvore foi criada rapidamente pelo irmão - que tampouco era a esperada.

“Quando eu olhei, não gostei muito do resultado. Então tratei de passar na papelaria, comprei uma cartolina e eu mesma desenhei a árvore. Ganhei o prêmio e descobri meu caminho”, conta Sandra, aos risos e lembranças.

Os passos seguintes a levaram para diversas direções. Cadernos repletos de desenhos; cursos de pintura; viagens; conhecimento. Se há um verbo que define a trajetória de Sandra Resende, este se chama reinventar. Assim, acompanhada do prefixo -re, a artista se movimenta pelos campos da arte.

Do design de estamparia à figuração, da abstração à arte sacra. De aluna à professora, a artista profissional lembra que desde os 18 anos tem o seu atelier. “Eu nunca gostei de ficar na mesma tecla. Eu tenho que respirar”, conta a artista, que tem um trabalho pautado no desenho e na gestualidade.

Tanto na vida pessoal quanto profissional, Sandra se reinventa. Em busca da universalidade da linguagem, vai além do fator técnico, evidenciando elementos atemporais, eternos e contemporâneos. Em virtude do emprego do marido, a artista morou em várias cidades. A cada local que residia, plantava uma semente através de seu atelier. Ministrava cursos para os moradores, vendia materiais de pintura, disseminava arte.

Barbacena, Coronel Fabriciano, Conselheiro Lafaiete, Vitória. Seja morando em Minas Gerais ou já no Espírito Santo, a artista estava sempre dedicada à pintura. “Não parei, nunca mais, de desenhar e pintar. E começar de novo não me assusta. Eu penso que o meu trabalho irá prosseguir em qualquer lugar”.

Algo que se explique, supostamente, pela raíz e o sotaque mineiros - visíveis e contagiantes. Extrovertida, Sandra Resende gosta da casa aberta para alunos e visitantes. Gosto este também compartilhado por sua família, sempre apoiando o trabalho da artista, esposa e mãe. Tanto que, seu braço direito tem o sobrenome Resende.

Assessora, parceira e filha, Dayse Resende sempre acompanhou a mãe ao longo de sua carreira. “Meu irmão e eu nunca conhecemos uma casa diferente disso. Muitas telas e pinceis, muitos alunos e materiais na sala de jantar.  Uma coisa legal é que meu pai não se incomodava. Você vendo essa relação positiva, você acaba achando legal”, comenta Dayse, que também é artista plástica.

Transformação

Paisagens, elementos da natureza e animais são objetos retratados na pintura de Sandra Resende. A artista trabalhava com tinta a óleo, mas precisou mudar seus materiais devido à alergia que desenvolveu. Ao longo do tempo, tinta acrílica, têmpera ovo, grafite, borracha e bastões de cera passaram a fazer parte de seu acervo.

A mudança também veio através de outra necessidade: mudar sua linguagem. Antes trabalhando com a pintura figurativa, Sandra viu que ainda não havia se encontrado: “Comecei a pesquisar, a ir atrás de outros artistas, que tinham uma linguagem mais conceitual. Foi a partir daí que a minha pintura começou a dialogar com a arte contemporânea”.

“Ela gosta da materialidade dos próprios materiais”, afirma Dayse. A mãe não nega. O processo de produção de uma tinta é luz para seus olhos, “porque eu gosto de sentir o processo, de fazer, misturar, ver se vai dar certo ou não”, acrescenta.

Entre viagens, festivais de inverno em Ouro preto e Diamantina, mostras e cursos de arte, veio o fortalecimento de conceitos e de seu discurso na arte. Procurando por renovações e reinvenções, participou de vários cursos e imersões em arte contemporânea. Uma experiência norteadora desta nova fase foi a participação do curso Procedência e Propriedade, ministrado por Charles Watson, educador e palestrante especializado em Processo Criativo.

Sandra pesquisava outras caminhos para seu trabalho. A artista então desenvolveu uma nova linguagem, reconhecendo novas formas de processo e procedimento der  sua arte. Nesta nova fase, a pintura de Sandra dialoga com o abstrato, numa relação que amadurece até os dias atuais.



Continua….

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